E o Karate-do agora é olímpico. O que muda?

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Levei um tempo para digerir a notícia. Na verdade, pensei bem antes de escrever sobre esse assunto que tem dividido opiniões entre karatekas em todas as partes do mundo e em diversas organizações. Depois de muito ouvir e dar um pitaco ou outro, resolvi colocar o que penso: muda pouco. Pelo menos de forma prática.

Confesso que antigamente pra mim qualquer karate-do que não fosse o Tradicional era coisa de esportista. Sabe, falar do “pula-pula” com desdém. Hoje ainda tenho minhas ressalvas – que vou explicar mais adiante, mas já enxergo as coisas diferentes.

Bom eu escrevo que não muda pelo simples fato de que o karate mais esportivizado é uma realidade há muito tempo. As competições nos moldes da WKF – protetores, pontuações, sem contato – estão aí, participando dos Jogos Panamericanos não é de hoje e muitos dojo estão filiados à eles. O mérito de ter entrado nas Olimpíadas é desse Karate, que se moldou para entrar no pacote olímpico. E isto, de estar em um evento massivo com uma mídia global, vai trazer uma grande vitrine pro Karate-do como um todo, tanto para a grande academia da capital quanto para o pequeno dojo do interior, como o nosso. E isso pode trazer alunos, gente que se esqueceu que existe a nossa arte marcial em meio à onda que é o Jiu Jitsu e o Muai Thai.

“Mas a arte marcial vai se perder.” Sim, de certa forma isto pode acontecer. Exemplo? Esta luta dos jogos Panamericanos. Veja que estão mais preocupados no ponto do que na eficiência do golpe. Inclusive passam mais tempo olhando os árbitros do que manter o zanshin – o espírito de alerta –  após a aplicação. Isso é errado? Não se for tratado como um esporte. Agora golpes como Empi-uchi (cotovelada) e Hiza-Geri (joelhada)  poderão se tornar meros movimentos perdidos nos kata, afinal não se pode usar isto nas Olimpíadas…

Mas ao mesmo tempo que escrevo um parágrafo triste como esse de cima, vejo um outro movimento. Nos meus tempos de guri no Karate, só existia o Kyokushin como Karate-do de contato. Apenas a ITKF, do saudoso Nishiyama Sensei outorgava o título de tradicional. Hoje não acontece isto. Mais e mais sensei e dojo buscam um Karate-do de raiz, buscando técnicas antes esquecidas. Novos estilos tem surgido, buscando eficiência e marcialidade. O Shotokan, estilo mais difundido de karate-do no mundo, tem várias escolas como o TKI e muitas organizações como a WTKF que não estão nos moldes olímpicos. Eu aprendi e ensino assim, Karate-do para a disciplina do corpo e da mente, sem preocupar-se com pontos.

Ok, tenho que fazer uma pequena ressalva. Vai ter muita gente querendo se aproveitar do trabalho da WKF. Digo, querendo entrar na onda de “agora somos olímpicos, venha treinar conosco” mas na verdade não está ligada naquela organização, portanto fora dos jogos. Inclusive isso pode dar mais nó na cabeça dos iniciantes do que linha de pesca, mas isso somente o tempo vai mostrar como resolver.

Então acho que no fim caberá ao aluno a escolha do Caminho. Pode ser que ele comece em um “dojo olímpico” e depois queira partir para algo mais tradicional. Pode ser que outro aluno comece no tradicional e sinta a falta do esporte. O certo é que mais pessoas poderão conhecer nossa arte e, dali pra frente, caberá ao Sensei de cada Dojo trabalhar aquilo que lhe fizer mais feliz!

 

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